Eu me pergunto, depois de afirmar por todo o mundo, se eu já superei, de fato.
Me pego lembrando daquele tempo em que o sorriso era tão espontâneo e sincero. Talvez por saber que eu não seja o único responsável por pisar onde hoje piso ou talvez só porque eu sinta falta do sentimento que não mais tenho.
No rádio toca aquela música: hoje é uma das maiores fontes da minha nostalgia. Então me lembro da sensação de sempre estar em casa - independente de onde eu estivesse.
Mas vejo quem sou hoje em dia e penso que não, não sinto falta de ninguém. Um dos meus maiores sonhos era morar contigo, hoje esse sonho é morar comigo.
Acho que no final das contas nunca se supera um relacionamento.
Unspoken Words
sexta-feira, 25 de maio de 2018
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Silêncio
Sozinho, no fundo do meu próprio poço, me pergunto o quanto dura este momento.
De um dia para o outro percebi-me, finalmente, inútil - fútil. Desde que toquei-lhe não penso em mais nada, senão porque.
Porque desarranjar o arranjo? Coitado. Tão breve, fugiu tão cedo.
Coitado é de mim.
Não vejo minha condição como a de um apaixonado, mas como a de um abandonado que, oco, percebeu-se.
Em outros tempos não haveria sofrimento. Não saberia dizer do que precisara, nem se minha própria vida disso dependesse. Sei, hoje, que, por hora, não me basto.
Triste é o meu silêncio que não afaga a quietude que me descompleta.
Não quero nada de ti, não vejo nada em ti. Mas preciso. Preciso daquilo que sozinho não tenho. Então sinto falta de ti.
Porque não me basto?
Desta pequena tragédia só concluo que não há saída, se não esperar.
Não há saída, hoje, senão o silêncio.
Porque eu?
-
Audição recomendada:
Mahler - Sinfonia #5 "Adagietto"
De um dia para o outro percebi-me, finalmente, inútil - fútil. Desde que toquei-lhe não penso em mais nada, senão porque.
Porque desarranjar o arranjo? Coitado. Tão breve, fugiu tão cedo.
Coitado é de mim.
Não vejo minha condição como a de um apaixonado, mas como a de um abandonado que, oco, percebeu-se.
Em outros tempos não haveria sofrimento. Não saberia dizer do que precisara, nem se minha própria vida disso dependesse. Sei, hoje, que, por hora, não me basto.
Triste é o meu silêncio que não afaga a quietude que me descompleta.
Não quero nada de ti, não vejo nada em ti. Mas preciso. Preciso daquilo que sozinho não tenho. Então sinto falta de ti.
Porque não me basto?
Desta pequena tragédia só concluo que não há saída, se não esperar.
Não há saída, hoje, senão o silêncio.
Porque eu?
-
Audição recomendada:
Mahler - Sinfonia #5 "Adagietto"
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
domingo, 16 de março de 2014
Sem título
Fosse este
uma parte do que serei
E aquele
uma parte do que já fui,
Quem o andamento irá reger,
da minha vida,
e o tempo irá ditar
para que nunca me perca
- nem suma -
dentro da mente ainda tão confusa?
Quem será o responsável pelo futuro?
Será aquele que trás a palavra num bater de asas
ou aquele que dá a vida
também me narra as pegadas?
Pois agora não sou mais ninguém
e em minha mais incessante busca
consegui concluir que eu,
diferente de ontrem,
sou incapaz de vencer esta luta.
uma parte do que serei
E aquele
uma parte do que já fui,
Quem o andamento irá reger,
da minha vida,
e o tempo irá ditar
para que nunca me perca
- nem suma -
dentro da mente ainda tão confusa?
Quem será o responsável pelo futuro?
Será aquele que trás a palavra num bater de asas
ou aquele que dá a vida
também me narra as pegadas?
Pois agora não sou mais ninguém
e em minha mais incessante busca
consegui concluir que eu,
diferente de ontrem,
sou incapaz de vencer esta luta.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Veneno
Respiro fundo mais uma vez e inspiro a vida que busco. Fecho os olhos e vem uma imagem translúcida do que quero de mim - um reflexo. É intrigante a maneira como planejo o futuro terceirizando minha alegria - as vezes intrigante demais.
Mas o futuro parece cada vez mais próximo e as realizações cada vez mais distantes, escorrega por entre meus dedos minha visão: estou cego, estou perdido. Vasto seja o caminho que tenho pela frente, não só pela frente como por todos os lados. Vasta seja a vida que vem, vasta seja a visão que enxerga mais do que (eu) gostaria de ver.
Eis que surge - cai do céu - uma resposta; tão de repente não há mais perguntas. É só um assunto. Talvez recorrente demais, pois com ele converso todos os dias. É só uma experiencia, talvez forte demais, pois experimento todos os dias. E ela sussurra calma no meu ouvido, traz-me vida e dá-me a certeza de que dentre minha perdição há um caminho. E trago aquele caminho, vivo aquele caminho - sou abraçado pelas mesmas asas que de mim se afastam: sou um brinquedo. Um toque macio que seda os sentimentos, tão macio quanto o mais nobre dos tecidos, tão presente quando a mais forte das duvidas.
E as abrem-se as asas, voando para longe:
- Como pôde tanta recorrência ter tão pouca significancia? - pergunto.
- É simples se parar e pensar: há assunto, mas não há vontade. Não saberia explicar nem por toda razão deste mundo.
- Mas como explica-me aquele dia? E aquele outro? E aquela brisa ou aquele olhar? Como se desempenha a mascarar tudo aquilo e sedar-se do que pode vir a sentir por mim? - novamente pergunto.
- Não sei te explicar. Volto sempre a te abraçar, pois te ti não quero distância, quero-te perto - mas talvez não tão perto. É algo em ti - ou algo em mim - que não brilha, não satisfaz. Não se constrói futuro de coisas assim, não se começa algo assim.
Abro um maço, trago um cigarro a minha boca e reflito por um instante. Há alguma beleza na fumaça circulando os seus problemas e amortecendo-os a medida que você cai de um voo alto (ou quando te largam em pleno voo). A queda parece ser mais tranquila. Trago de novo, mas não o cigarro, agora trago aquele momento. E ponho-me novamente à situação:
- Como podes não construir um futuro baseado em coisas assim? São coisas assim que fazem o próprio futuro! Apenas deixe a brisa nos levar para longe, suas asas são suficientes para nós dois, o tempo se encarregará do resto. E como dizes que não há brilho ou faísca? É inegável que há, em dados momentos. Mas apenas precisamos desses momentos.
- Talvez seja assunto demais, eu posso ter o tanto quanto quiser contigo e sempre vou ter mais. Isso nunca tive e não quero deixar de ter, mas o voo... acho que já voei mais alto. Você é denso demais.
- Denso? Culpa minha carga por sua incapacidade?
- É, denso... sabe? Algo que não necessariamente pesado, mas difícil de carregar. É tudo metafórico. Mas pense nisso por um instante: adoro a maneira como fala e tem ideias e é capaz de dissertar sobre diversos assuntos. Admiro sua visão e gostaria de compartilhar dos óculos que usa as vezes. De fato, até considero tua palavra. Mas não fale sobre minha incapacidade. Recordo-me de ter carregado pesos maiores.
- Pois digo que ainda há chance. Não jogue fora, nem todo voo que começa baixo termina baixo.
- Mas nenhum voo que mantem-se baixo é capaz de subir.
- Se for assim, como planadores sobem?
- Não quero saber da física. Desprezo a física e a tua lógica-sentimentalista. Você se baseia demais nela. Não consegue entender o que quero dizer? É um analfabeto funcional, isso que é! Mal consegue ler as entrelinhas. Tudo que disse, disse em teu valor. Veja: se não tivesse dito aquelas coisas, teria vindo à mim?
- Sadismo! Podre!
- Foi necessário.
- Egoísmo! O mundo não gira em torno de seu umbigo!
- Não tenho umbigo. Sou uma parte de ti que não podes tocar, não se esqueça disso. Lembre-se que não tenho sabedoria física ou matemática do que podes tocar. Sou tão instintivo quanto o que sentes: por mais que culpe a lógica do seu raciocínio, não consegue explicar o que sente!
- Não ponha a culpa em minha mente.
- Ponho sim. Na sua mente e nessa sua inacessível irracionalidade. É apenas real o que tocas e a mim não pode encostar um dedo sequer. Sou o que vê, mas não o que tocas. Sou o que sente do que tocas.
Agora faz sentido, pouco sentido, mas se existe algum sentido nessa história, ele começa aqui. Talvez. Costumo dizer que há um limite muito tênue entre a sanidade e a insanidade - cruzei esse limite algumas vezes, fui e voltei. Foi tão fácil ir e tão difícil voltar que me proibi de ir apenas pela dificuldade de voltar, acho que é assim que as coisas funcionam, praticamente... mas não tem tanto a ver com praticidade, talvez mais a ver com o que fui capaz de criar. E então ouço, sem perguntar nada, apenas me é dito:
- Sabe, foi você que criou isso tudo. Esse problema todo, você complicou tudo. Você quis o controle da situação, e você fazia graça dos controladores... francamente. Tantas vezes você questionou o seu erro e cometeu-o dessa vez. Entenda, há um problema um tanto... filosófico aqui. Nem tão físico, mas metafórico, novamente. Você acredita que bons voos começam baixos, mas eu sempre gostei quando saltei alto e mantive-me alta - e acredito no que gosto. Como podemos conviver assim? Seja franco.
- É, talvez não possamos. Começamos uma relação fadada ao fracasso sem nem sabermos. Somos tão parecidos, tanta aparência! E como pôde essa pequena diferença afastar-nos? Tão pequena, imensurável. Minha visão fica turva apenas em pensar que de ti me afastarei e então terei de ver-te em outros caminhos...
- Mas é isso, vá. Adeus. - concluo.
- Nos falamos? Eu não quero distancia.
- Eu quero. O máximo de distancia possível.
- Mais um problema?
- Sim, todos... vou embora. Deixe-me, tenha-me desta forma ou não me tenha de forma alguma. Não posso fugir do clichê.
- Se peco no sadismo, você pecou em ser tão previsível. Despresível.
- Pare de me torurar, vou embora. Adeus. Tenha uma boa vida, viva bem. Siga o caminho que mereces, não se deixa enganar. Não quero saber de você daqui a dez ou vinte anos como uma promessa não cumprida. Adeus.
Acabou.
Assim terminou a conversa. Não há conclusões a serem tiradas, não há nada a ser dito - ou mostrado. O que é para ser lembrado será lembrado, mas serei esquecido. Apenas lembrarei sem ser lembrado. Falo comigo mesmo, pois sou duas pessoas agora: sou quem fala e quem ouve. Sou os dois lados da moeda, entendo ambos. Mas falho em contentar-me em entende-los...
Portanto, ponho-me a livrar-me do veneno que correu em minhas veias: eu mesmo.
Ora, o caminho é vasto de novo. A visão está cansada de novo, o medo volta e a perdição também. E perambulo sozinho, andando livre entre meu lado são e meu lado insano, buscando um porquê, buscando uma data e um local. Sigo, apenas sigo.
Não há nada a dizer, mas há algo que refuto a aceitar. Devo, contudo, acostumar-me a ideia agora, para que um dia possa aceitar - quem sabe? Pois, de tudo dito, nada foi retirado. Essa conversa não significou nada, de novo...
Mas o futuro parece cada vez mais próximo e as realizações cada vez mais distantes, escorrega por entre meus dedos minha visão: estou cego, estou perdido. Vasto seja o caminho que tenho pela frente, não só pela frente como por todos os lados. Vasta seja a vida que vem, vasta seja a visão que enxerga mais do que (eu) gostaria de ver.
Eis que surge - cai do céu - uma resposta; tão de repente não há mais perguntas. É só um assunto. Talvez recorrente demais, pois com ele converso todos os dias. É só uma experiencia, talvez forte demais, pois experimento todos os dias. E ela sussurra calma no meu ouvido, traz-me vida e dá-me a certeza de que dentre minha perdição há um caminho. E trago aquele caminho, vivo aquele caminho - sou abraçado pelas mesmas asas que de mim se afastam: sou um brinquedo. Um toque macio que seda os sentimentos, tão macio quanto o mais nobre dos tecidos, tão presente quando a mais forte das duvidas.
E as abrem-se as asas, voando para longe:
- Como pôde tanta recorrência ter tão pouca significancia? - pergunto.
- É simples se parar e pensar: há assunto, mas não há vontade. Não saberia explicar nem por toda razão deste mundo.
- Mas como explica-me aquele dia? E aquele outro? E aquela brisa ou aquele olhar? Como se desempenha a mascarar tudo aquilo e sedar-se do que pode vir a sentir por mim? - novamente pergunto.
- Não sei te explicar. Volto sempre a te abraçar, pois te ti não quero distância, quero-te perto - mas talvez não tão perto. É algo em ti - ou algo em mim - que não brilha, não satisfaz. Não se constrói futuro de coisas assim, não se começa algo assim.
Abro um maço, trago um cigarro a minha boca e reflito por um instante. Há alguma beleza na fumaça circulando os seus problemas e amortecendo-os a medida que você cai de um voo alto (ou quando te largam em pleno voo). A queda parece ser mais tranquila. Trago de novo, mas não o cigarro, agora trago aquele momento. E ponho-me novamente à situação:
- Como podes não construir um futuro baseado em coisas assim? São coisas assim que fazem o próprio futuro! Apenas deixe a brisa nos levar para longe, suas asas são suficientes para nós dois, o tempo se encarregará do resto. E como dizes que não há brilho ou faísca? É inegável que há, em dados momentos. Mas apenas precisamos desses momentos.
- Talvez seja assunto demais, eu posso ter o tanto quanto quiser contigo e sempre vou ter mais. Isso nunca tive e não quero deixar de ter, mas o voo... acho que já voei mais alto. Você é denso demais.
- Denso? Culpa minha carga por sua incapacidade?
- É, denso... sabe? Algo que não necessariamente pesado, mas difícil de carregar. É tudo metafórico. Mas pense nisso por um instante: adoro a maneira como fala e tem ideias e é capaz de dissertar sobre diversos assuntos. Admiro sua visão e gostaria de compartilhar dos óculos que usa as vezes. De fato, até considero tua palavra. Mas não fale sobre minha incapacidade. Recordo-me de ter carregado pesos maiores.
- Pois digo que ainda há chance. Não jogue fora, nem todo voo que começa baixo termina baixo.
- Mas nenhum voo que mantem-se baixo é capaz de subir.
- Se for assim, como planadores sobem?
- Não quero saber da física. Desprezo a física e a tua lógica-sentimentalista. Você se baseia demais nela. Não consegue entender o que quero dizer? É um analfabeto funcional, isso que é! Mal consegue ler as entrelinhas. Tudo que disse, disse em teu valor. Veja: se não tivesse dito aquelas coisas, teria vindo à mim?
- Sadismo! Podre!
- Foi necessário.
- Egoísmo! O mundo não gira em torno de seu umbigo!
- Não tenho umbigo. Sou uma parte de ti que não podes tocar, não se esqueça disso. Lembre-se que não tenho sabedoria física ou matemática do que podes tocar. Sou tão instintivo quanto o que sentes: por mais que culpe a lógica do seu raciocínio, não consegue explicar o que sente!
- Não ponha a culpa em minha mente.
- Ponho sim. Na sua mente e nessa sua inacessível irracionalidade. É apenas real o que tocas e a mim não pode encostar um dedo sequer. Sou o que vê, mas não o que tocas. Sou o que sente do que tocas.
Agora faz sentido, pouco sentido, mas se existe algum sentido nessa história, ele começa aqui. Talvez. Costumo dizer que há um limite muito tênue entre a sanidade e a insanidade - cruzei esse limite algumas vezes, fui e voltei. Foi tão fácil ir e tão difícil voltar que me proibi de ir apenas pela dificuldade de voltar, acho que é assim que as coisas funcionam, praticamente... mas não tem tanto a ver com praticidade, talvez mais a ver com o que fui capaz de criar. E então ouço, sem perguntar nada, apenas me é dito:
- Sabe, foi você que criou isso tudo. Esse problema todo, você complicou tudo. Você quis o controle da situação, e você fazia graça dos controladores... francamente. Tantas vezes você questionou o seu erro e cometeu-o dessa vez. Entenda, há um problema um tanto... filosófico aqui. Nem tão físico, mas metafórico, novamente. Você acredita que bons voos começam baixos, mas eu sempre gostei quando saltei alto e mantive-me alta - e acredito no que gosto. Como podemos conviver assim? Seja franco.
- É, talvez não possamos. Começamos uma relação fadada ao fracasso sem nem sabermos. Somos tão parecidos, tanta aparência! E como pôde essa pequena diferença afastar-nos? Tão pequena, imensurável. Minha visão fica turva apenas em pensar que de ti me afastarei e então terei de ver-te em outros caminhos...
- Mas é isso, vá. Adeus. - concluo.
- Nos falamos? Eu não quero distancia.
- Eu quero. O máximo de distancia possível.
- Mais um problema?
- Sim, todos... vou embora. Deixe-me, tenha-me desta forma ou não me tenha de forma alguma. Não posso fugir do clichê.
- Se peco no sadismo, você pecou em ser tão previsível. Despresível.
- Pare de me torurar, vou embora. Adeus. Tenha uma boa vida, viva bem. Siga o caminho que mereces, não se deixa enganar. Não quero saber de você daqui a dez ou vinte anos como uma promessa não cumprida. Adeus.
Acabou.
Assim terminou a conversa. Não há conclusões a serem tiradas, não há nada a ser dito - ou mostrado. O que é para ser lembrado será lembrado, mas serei esquecido. Apenas lembrarei sem ser lembrado. Falo comigo mesmo, pois sou duas pessoas agora: sou quem fala e quem ouve. Sou os dois lados da moeda, entendo ambos. Mas falho em contentar-me em entende-los...
Portanto, ponho-me a livrar-me do veneno que correu em minhas veias: eu mesmo.
Ora, o caminho é vasto de novo. A visão está cansada de novo, o medo volta e a perdição também. E perambulo sozinho, andando livre entre meu lado são e meu lado insano, buscando um porquê, buscando uma data e um local. Sigo, apenas sigo.
Não há nada a dizer, mas há algo que refuto a aceitar. Devo, contudo, acostumar-me a ideia agora, para que um dia possa aceitar - quem sabe? Pois, de tudo dito, nada foi retirado. Essa conversa não significou nada, de novo...
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Frustração
Curiosa a maneira como a decepção ocorre à mente. Pode ser sobre qualquer assunto e conforme a idade - consequentemente - as responsabilidades aumentam; aumentam as fontes de frustração: seu trabalho, seus relacionamentos, suas amizades, você mesmo, sua família, o sistema ecônomico mundial, o "bom dia" que uma pessoa que você não gosta lhe deu, seus planos não terem saído como planejados... um poço fundo e largo onde almas caem constantemente - uma armadilha.
Mas ninguém, absolutamente ninguém, tenta sair uma vez dentro do buraco.
- E eu sou excessão?
Curiosa a maneira como uma mente criativa
pode se transformar numa máquina impotente. Não é incomum encontrar-se em estado letárgico, sedado de si mesmo. Não é comum encontrarmos um argumento instigante em quaisquer caminhos, é difícil tropeçar em algo que valha a pena; não vale a pena. Simplesmente não vale a pena - querer estar vivo, querer poder respirar cada momento, não vale a pena. Não se faz mais arte ou declaração, não faz mais sentido e nem vida, faz-se sequencia e automação: é o que dá futuro, é o que dá carreira - tá em alta no mercado. Talvez seja de agrado geral reclamar e não mudar - ao invés de mudar e não reclamar.
- A alma sofre;
- A vida pulsa;
- A mente se cala.
Curiosa a maneira como evita-se a mudança. É tão fácil transformar-se em alguém que não valhe a pena pelo simples fato de não achar que valhe a pena se transformar. Falha a lógica. Falha o ceticismo. Falham a saturação e o foco. É inerente, digo, é quase uma parte adormecida em cada um de nós o poder de fazer algo que nos faça sentir maior que nós mesmos - mas, então, falta o que? Hobby ou vontade? Livro ou óculos?
- As pessoas viram caricaturas de si mesmas.
Curiosa a maneira como incapacito tudo que me parece ter uma descrição óbvia. Fujo do óbvio e da gíria, não me admiro facilmente - simplesmente não quero ser uma gíria. Mas retorno: quem eu quero ser, ora, se não eu mesmo? Mas quem sou eu mesmo se não, ora, uma cópia próxima ao que admiro e antônima-distante do que detesto? Entra, então, o sentimento de que descobrir-me é inútil, mas inventar-me é cruscial. Vejo apenas o que não quero seguir e sigo apenas o que quero, me faço cada vez mais distante de cada gota venenosa do senso-comum. Quero me afastar da vida pequena que cabe no cotidiano, quero evitar ser uma generalização e também uma reclamação. Entediam-me pessoas que não sabem discernir o que pensam do que foram ensinados, entediam-me facilmente pessoas que não são capazes de desenvolver um pensamento por si mesmas, entedia-me a religião, entedia-me o certo e o errado, entedia-me o que me faz bem e entedia-me o que me faz mal.
Equilibrio: apenas uma corda, uma linha. Desequilibrar-se é virar uma rosa posta em cima de seu túmulo, equibrar-se é não ter sequer uma lápide - não é o esquecimento, mas a vida eterna, o sentimento.
- Engrandecimento.
Curiosa a maneira como me faltam palavras e, em consequencia, coerencia. E então me ascende a frustração e o desespero:
- Faltam-me palavras ou falta-me sentido?
domingo, 29 de abril de 2012
Relógio
(Continuação de Estação de Trem)
Aquele homem era incomum. Trazia consigo uma pressa intrigante, poucos tinham aquela espécie de brilho. O homem olhava incessantemente para o relógio perfeitamente polido: o dourado lhe agradava os olhos. O narcisismo profissional que aquele homem emanava era capaz de incomodar; preocupava-lhe o tempo, não o porquê, mas a matemática: quanto tempo ainda há, quanto tempo já passou? Ajeitava o terno compulsivamente como forma de saciar a inquietude. Aquele homem era o que ele possuía. Ele era o seu relógio, o seu terno risca de giz, sua calça feita sob medida: ele vestia o que ele era.
Porque?
Quem passava ao seu redor olhava curioso enquanto o sol tímido iluminava o pavimento em tom-pastel da estação. Seus sapatos refletiam o mundo de maneira que quem passava ao redor do homem temia chegar perto demais para não sujar. Alguns olhavam com certa admiração o seu Messias contemporâneo atender o celular e cuspir palavras ásperas ao vento. Naquela estação, naquele momento, ele era (para si) um deus. Ele era o exemplo, o objetivo. Era tão admirado que chegava a ser temido.
Respeito. Pelo que? Pelo homem ou pela imagem? Respeito por seu semelhante ou superior?
Quem era ele e porque ele era melhor que eu? Quem disse que ele era? Quem disse? De qualquer forma, quem ao redor estava parecia achar isso.
Convicto de si mesmo o homem era. Tão convicto como jamais vira antes. Ele sabia o que queria, ele sabia quem ele era, ele sabia o que estava fazendo - sem dúvidas. Ele parecia tão seguro de si que ninguém era capaz de abala-lo, por nada nesse mundo, por ninguém nesse mundo.
E quem ele tinha além de si?
O que ele via que não fosse baseado nele mesmo?
Aquele homem era incomum. Trazia consigo uma pressa intrigante, poucos tinham aquela espécie de brilho. O homem olhava incessantemente para o relógio perfeitamente polido: o dourado lhe agradava os olhos. O narcisismo profissional que aquele homem emanava era capaz de incomodar; preocupava-lhe o tempo, não o porquê, mas a matemática: quanto tempo ainda há, quanto tempo já passou? Ajeitava o terno compulsivamente como forma de saciar a inquietude. Aquele homem era o que ele possuía. Ele era o seu relógio, o seu terno risca de giz, sua calça feita sob medida: ele vestia o que ele era.
Porque?
Quem passava ao seu redor olhava curioso enquanto o sol tímido iluminava o pavimento em tom-pastel da estação. Seus sapatos refletiam o mundo de maneira que quem passava ao redor do homem temia chegar perto demais para não sujar. Alguns olhavam com certa admiração o seu Messias contemporâneo atender o celular e cuspir palavras ásperas ao vento. Naquela estação, naquele momento, ele era (para si) um deus. Ele era o exemplo, o objetivo. Era tão admirado que chegava a ser temido.
Respeito. Pelo que? Pelo homem ou pela imagem? Respeito por seu semelhante ou superior?
Quem era ele e porque ele era melhor que eu? Quem disse que ele era? Quem disse? De qualquer forma, quem ao redor estava parecia achar isso.
Convicto de si mesmo o homem era. Tão convicto como jamais vira antes. Ele sabia o que queria, ele sabia quem ele era, ele sabia o que estava fazendo - sem dúvidas. Ele parecia tão seguro de si que ninguém era capaz de abala-lo, por nada nesse mundo, por ninguém nesse mundo.
E quem ele tinha além de si?
O que ele via que não fosse baseado nele mesmo?
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